domingo, 8 de junho de 2008

GENOCÍDIO LEGAL

Monday, June 25, 2007


APOSENTADOS E PENSIONISTAS DA VARIG SÃO MAIS DE 8.500 BRASILEIROS AO DEUS DARÁ.

PROBLEMA DELES? NÃO. O PROBLEMA É MEU, É SEU E DE TODOS OS BRASILEIROS QUE SE PREOCUPAM COM O FUTURO DO BRASIL.

DEPOIS DE DESTRUIREM AS ANTIGAS E TRADICIONAIS EMPRESAS AÉREAS - TROCANDO-AS DE MÃOS - OS PLANOS CONTINUAM. AGORA, O ALVO É O CONTROLE DE TRÁEGO AÉREO.

TUDO INDICA QUE ESTA NOVA ETAPA SERÁ IGUALMENTE BEM SUCEDIDA.



Caríssima, nesta hora, faço-lhe um chamamento humano: é que nos próximos dias, autoridades governamentais certamente estarão examinando o problema ora relatado, que está encurtando dias de nossas vidas: POR FAVOR, AJUDEM-NOS! É UM CLAMOR QUE LHE DIRIJO EM NOME DOS MEUS COLEGAS, MUITOS DOS QUAIS, GRANDEMENTE SOFRIDOS, PRÓXIMOS ÀS SUAS ÚLTIMAS MORADAS, ESPERAM VER UM GESTO SOLIDÁRIO, QUE LHES FAÇA GUARDAR A CERTEZA DE QUE VALEU A PENA LEGARMOS UMA VIDA DIGNA ÀS FUTURAS GERAÇÕES”.

O apelo foi feito a mim por um senhor de quase 70 anos de idade – cujo nome deve ser preservado – que teve seu único emprego na VARIG, onde trabalhou de 1960 a 1993, quando se aposentou na função de Gerente de um setor super qualificado. Ele também é beneficiário da entidade de Previdência Privada Instituto Aerus de Seguridade Social e se diz enormemente penalizado pela atual situação dos pensionistas do fundo, que vêm tendo seus proventos enormemente reduzidos, já há alguns anos. Embora seja hiper-tenso (controlado), teve que abdicar, entre outras coisas, do plano de saúde que possuía, para cortar despesas. Mesmo assim, hoje, não lhe restam condições financeiras para adquirir nem mais os custosos remédios que lhe mantém vivo.

E o gerente aposentado continua: “A terrível angústia em que vivemos ainda não motivou a nos atirarmos de algum viaduto, principalmente pela fé em Deus que temos. Nesse sentido, salvo algum desespero extremo isolado, os sofrimentos que têm levado muitos colegas à morte são inerentes às graves seqüelas que lhes têm acometido nesta difícil quadra da vida”.

O senhor tem razão. E não são só os idosos que estão morrendo. Filho do antropólogo Roberto da Matta, o piloto Rodrigo da Matta, que estava bem de saúde, segundo os exames que a atividade profissional exige a cada ano, morreu, aos 44 anos, fulminado por um infarto, na semana em que o pai festejaria seus 70 anos, em julho de 2006. O problema foi que, muito provavelmente, o coração de Rodrigo não tenha resistido às aflições pelas quais atravessava o comandante e sua família. Sem ver um tostão desde abril, ele poderia estar entre os seis mil funcionários da VARIG que iriam ser demitidos e tratados como se nunca tivessem trabalhado na empresa. Tudo dentro da Lei de Recuperação de Empresas, criada em 2005.

É uma estória digna de ser contada pelas tão ricamente produzidas minisséries da Globo ou por nossos cineastas, que costumam usar o dinheiro dos brasileiros para produzir filmes que enaltecem a “luta”, no passado, de muitos dos homens que estão, hoje, dentro ou em volta do Palácio do Planalto e do Congresso, transformando o país neste caldeirão de corrupção, de ingovernabilidade e de apologia do retrocesso político e econômico.

A Varig, é bom que se lembre, era a única companhia brasileira em condições de real competição com as grandes empresas aéreas estrangeiras. Apesar disso, não conseguiu ajuda do governo (que devia à Varig cerca de R$ 6 bilhões). Como se fosse pouco, a empresa não teve sua falência decretada, o que acabou dificultando o recebimento de indenizações trabalhistas pelos funcionários que perderam seus empregos ou que ficaram encostados. Há uma seqüência de golpes nas companhias de aviação do Brasil, que, agora, com o desmantelamento da Varig, vai acabar tornando insustentável e infernal a prestação de serviços de transportes aéreos no país. Sim, porque, deveria ser sabido por todos que não se faz uma companhia de aviação séria de um dia para o outro.

O mercado não teria – e ainda não tem - como absorver todos os profissionais que perderam seus empregos, principalmente nos ramos em que se especializaram. E, com certeza, os que forem reabsorvidos pelas outras empresas aéreas terão seus salários bastante diminuídos. Não há como a TAM e a Gol poderem suprir os 208 vôos diários, em 137 aeroportos brasileiros e 18 países servidos pela Varig. E os passageiros estarão expostos a um oligopólio que terá as mãos livres para mandar as tarifas para a estratosfera. Isso já aconteceu, recentemente, com as passagens aéreas para o exterior.

Com a redução dos vôos internacionais da Varig – inclusive com a suspensão temporária dos mesmos, depois da venda da companhia -, viajar para o exterior ficou mais difícil e mais caro. Com a procura aumentada em razão do baixo valor do dólar e com a menor oferta de assentos, as empresas aéreas cortaram os descontos. Isso para não falar do desconforto a que ficaram expostos os milhares de brasileiros que precisam viajar pelo país, ao terem que fazer, às vezes, mais de duas escalas – em vôos que, em um número cada vez maior de casos, nem ao menos diários são – para ir de uma capital a outra. Em passado recente, o cidadão poderia ir do Rio de Janeiro e de São Paulo para qualquer capital dos Estados brasileiros, em vôos diários – muitos deles sem escalas.

O deputado estadual Paulo Ramos (PDT-RJ), presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) que investiga o processo de venda da Varig já declarou que “a decisão política de extinguir a Varig já estava tomada, para que um resultado adrede preparado fosse alcançado". Ele exibiu documentos trazidos à CPI por João Raymundo Cysneiros Vianna, primeiro administrador judicial da empresa, ainda em 2005, quando havia muitas esperanças quanto à possível recuperação da VARIG e do Aerus. Em seu depoimento, Vianna disse que os diretores da Varig não davam a mínima importância às determinações da Justiça e que ele se queixou disso ao Judiciário - por escrito - e que os juízes, por sua vez, não só ignoraram as queixas como ainda o teriam afastado do cargo por este motivo.

Ora, o transporte aéreo é administrado pelo poder público e nada acontece sem a interferência dos órgãos governamentais. A base legal para que o governo ajudasse a Varig estava no artigo 188 do Código Brasileiro de Aeronáutica, que dá ao Governo Federal o poder de intervir em empresas aéreas quando a situação financeira, econômica ou operacional das mesmas ameaçar a continuidade dos serviços, a eficiência ou a segurança do transporte aéreo. O governo petista, portanto, pode ser, sim, co-responsabilizado pela sangria da Varig – assim como também, os representantes no poder legislativo, que não procederam a uma investigação que tanto se fazia necessária.

Por outro lado, a alegação de que a Varig tenha pago exclusivamente por seus erros era, e continua sendo, coisa de gente que, ou não sabe ou finge que não sabe que, desde o governo Collor, a empresa, e não somente ela, vinha sendo bombardeada. Começou em 1991, quando, numa dessas negociatas que nós brasileiros já estamos cansados de ver, a VASP, então a segunda maior transportadora brasileira, com uma frota de 31 aviões, foi parar nas mãos de Wagner Canhedo, que se apoderou de 60% das ações da empresa, por US$ 44 milhões. Collor autorizou, na época, linhas internacionais, não só para a VASP, como também para a Transbrasil e para a TAM. Pouco tempo depois, a VASP foi levada à falência e Canhedo chegou a passar alguns dias na cadeia.

Não foi diferente com a Transbrasil, cujo presidente, Antônio Celso Cipriani, esbanjava riqueza, enquanto a empresa registrava uma dívida de R$ 900 milhões. Entre os credores, estavam a Infraero (de R$ 2 milhões), a Shell, a Receita Federal, os ex-funcionários da companhia e a General Electric Capital, que pediu a falência da empresa aérea, aparentemente, por não ter recebido os US$ 2,7 milhões que eram devidos pela Transbrasil. A empresa também devia, ao INSS, R$ 422 milhões. Em março de 2005, por causa de parte desta dívida, Cipriani foi condenado pela 4ª Vara Criminal da Justiça Federal de São Paulo, a dois anos e quatro meses de prisão, em regime aberto, por crime de apropriação indébita de R$ 10,2 milhões, no período entre março de 2000 e outubro de 2001. O tempo de pena foi convertido em prestação de serviços comunitários e doação de 50 salários mínimos, para instituição definida pela Justiça Federal de São Paulo, e uma multa de mais 120 salários mínimos. Achou pouco? Pois é. Ex-agente do DOPS e, depois, entre outras coisas, dono da Transbrasil, Cipriani trabalhou na campanha de Lula em 2002. Em 2004, ele apareceu na lista de envolvidos na CPI do Banestado, porque, segundo membros da Comissão, teria enviado ao exterior pelo menos US$ 25 milhões. Não deu em nada.

Mas, não há como negar que o endividamento da Varig também tenha sido fruto de uma série de maus negócios realizados pelas sucessivas administrações da empresa e pela incapacidade de sua controladora - a Fundação Ruben Berta (FRB) (*) - de cobrar resultados desses administradores. Todas as consultorias que examinaram o assunto, sem exceção, apontaram a má gestão corporativa como responsável pela crítica situação da Varig. Embora tenha sido solicitada sistematicamente, durante anos, a FRB não apresentou nenhum plano de recuperação para a empresa e ainda dificultou qualquer que fosse o plano de reestruturação proposto pela associação dos trabalhadores da Varig.

O documento, que ficou conhecido como o Dossiê da Perseguição Política na Varig, produzido pelas Associações de Trabalhadores que integravam o corpo funcional da Varig continha toda a documentação que comprovava as práticas administrativas abusivas utilizadas pelos gestores da Fundação Ruben Berta e pelas diretorias que passaram pela empresa desde 2002. O documento afirmava que “Com o objetivo de impedir quaisquer discussões que ameacem o poder absoluto dentro da Varig, as administrações vêm utilizando métodos terroristas para intimidar os funcionários, demitindo sumariamente lideranças das associações (**), para desorganizar... a sua organização associativa, sempre voltada para a discussão das questões profissionais do grupo de trabalho”.

O documento dizia ainda que a retaliação por parte da diretoria da Varig estendeu-se às entidades representativas dos trabalhadores – APVAR, ACVAR (Associação dos Comissários) e AMVVAR (Associação dos Mecânicos de Vôo) -, das quais foram cortados os recursos diretos, que eram obtidos com o desconto, em folha de pagamento dos sócios, e com os quais financiavam a mobilização dos funcionários em defesa da companhia. O mesmo procedimento foi adotado pelo Instituto de Seguridade Aerus, cuja diretoria é indicada pela Varig, em relação à Associação dos Participantes e Beneficiários do Aerus (APRUS), que reúne os aposentados da Varig, todos com idade entre 60 e 90 anos.

Como já decidiu o STJ – e isso já tem tempo - Varig, Transbrasil e Vasp foram à lona em conseqüência de uma desastrosa política de congelamento tarifário, numa área que operava segundo as regras do mercado internacional, durante o governo do ex-presidente José Sarney. O que acabou, em última instância, por beneficiar as novas concorrentes que iam surgindo e que atualmente bi-monopolizam o mercado. No caso da Transbrasil, que venceu no STF em 1997, foi feito um acordo com o governo, em 1999, e a indenização ficou em R$ 725 milhões (valores de 1998), que foi trocada por débitos com a Receita Federal, a Previdência Social, a Infraero e o Banco do Brasil.

A Varig iniciou seu processo contra a União, na mesma época, e a vitória em primeira instância aconteceu em 1995, concedendo à empresa uma indenização calculada em R$ 2,23 bilhões. Em 1999, o Tribunal Regional Federal de Brasília confirmou a decisão, pelas mãos da então desembargadora Eliane Calmon – hoje ministra do STJ. Em 2004, o pleito chegou ao STJ e o relator, ministro Francisco Falcão, confirmou a sentença da desembargadora. Foi quando o ministro Luiz Fux pediu vistas. Voltando à 1ª Turma, a maioria acompanhou o voto do relator. Então, esperava-se que a matéria fosse para o STF. Mas, a Advocacia Geral da União entrou com o agravo regimental. A Primeira Seção do STJ rejeitou o agravo para reverter decisão da Primeira Turma que garantia indenização devida à Varig. Interrompido desde o dia 22 de novembro de 2006, o julgamento recomeçou em 25 de abril deste ano. Hoje, a velha Varig tem direito a R$ 6 bilhões, em números atualizados pelo ministro Herman Benjamin.

Em novembro de 2005, a AERO LB, sociedade com participação indireta da TAP (empresa de aviação portuguesa), do fundo nacional Stratus e da GEOCAPITAL (companhia chinesa com sede em Macau), adquiriu do Grupo VARIG – então presidido por Omar Carneiro da Cunha - 90% das ações ordinárias da VARIG ENGENHARIA E MANUTENÇÃO (VEM) e 95% das ações ordinárias da VARIG LOG, por US$ 62 milhões. A AERO LB, por sua vez, passou 95% da VARIG LOG, por US$ 48,2 milhões, para a Volo do Brasil – empresa criada pela associação dos empresários brasileiros Marco Antonio Audi, Marcos Haftel e Luis Eduardo Gallo com o Fundo de Pensão norte-americano Matlin Patterson, representado pelo chinês Lap Chan.

De posse da VARIG LOG, em junho/julho de 2006, o grupo de Lap Chan convidou Omar Carneiro da Cunha, o ex-presidente da VARIG, para a vice-presidência do Conselho de Administração da empresa, com a missão de, em parceria com o advogado Roberto Teixeira – o compadre de Lula -, viabilizar a compra de toda a VARIG. (Está lá, na revista Isto É, de 5/07/2006). Mas, havia mais gente interessada na Varig, entre eles, os funcionários da empresa, representados pela associação dos Trabalhadores do Grupo Varig (TGV). Eles ofereceram seus créditos trabalhistas e venceram o leilão para a compra da companhia. Mas, tiveram que esperar 11 dias para ter seu lance confirmado. Nesse período, enfrentaram a desenfreada campanha na mídia para desmoralizar a empresa – o que pode ter afastado prováveis aliados – e receberam uma notificação de 41 milhões de reais de uma dívida da Rio Sul (empresa da velha Varig) com o INSS.

A Justiça exigira dinheiro de quem adquirisse a Varig no leilão. Dando os créditos sobre seus direitos trabalhistas e sobre dívidas da União para com a empresa, os empregados da Varig foram buscar dinheiro em Santiago do Chile, com a LanChile e com o banco suíço UBS, com os quais já negociavam em segredo. Não deu tempo para eles. Enquanto fechavam negócio, a Justiça anulou o leilão e determinou um novo, no qual, com um plano de desembolso total de US$ 505 milhões, entre dívidas e investimentos, e com um lance de apenas US$ 24 milhões – que foi homologado em horas, e não 11 dias depois, como no caso do lance dos empregados -, a VARIG LOG, de Lap Chan, como a única empresa a participar do leilão, arrematou a VARIG, em 20/07/2006.

A aquisição deu origem à Aéreo Transportes Aéreos, rebatizada de VRG – a nova VARIG -, criada para assumir os ativos da antiga VARIG e que ficou com, além das as marcas Varig e Rio Sul, com as rotas domésticas e internacionais. A antiga Varig ficou com um avião, com a linha São Paulo-Porto Seguro e com as operações da Nordeste. A nova empresa, embora a legislação trabalhista imponha que esta deva assumir todos os débitos da predecessora – que, inclusive devem ser pagos em dinheiro – ficou (supostamente) eximida de suas obrigações trabalhistas, com base na Lei de Recuperação de Empresas.

Dessa forma, a nova Varig demitiu 6 mil funcionários da antiga empresa e deixou outros 3.800 como sobreviventes. O Sindicato dos Aeronautas tratou tão somente das autorizações para sacarem o fundo de garantia e para recorrerem ao auxílio desemprego. O principal, que soma mais de R$ 300 milhões (mais de R$ 106 milhões, só em salários atrasados, e R$ 230 milhões em verbas rescisórias), fica para quando a nossa notoriamente rápida e eficiente Justiça determinar – a previsão é a de que os filhos dos filhos dos filhos dos atuais implicados consigam receber o que lhes é devido hoje. Não é só isso. Os aposentados do Aerus podem ter suas pensões confiscadas com a liquidação do fundo, até porque eles já vêm sendo surrupiados há muito tempo (***).

A partir daquela data, pilotos, comissários, agentes, recepcionistas, atendentes e outros profissionais especializados, que já estavam trabalhando sem receber havia meses, ficaram ao Deus dará, sem ter mais como sustentar nem a si nem a seus familiares. Minto. Três aeromoças foram brindadas com a incrível oportunidade de posarem nuas para uma revista masculina de circulação nacional. Currículos: uma delas (26 anos) era formada em Relações Internacionais, além de falar inglês e alemão; outra (27 anos) era formada em Fisioterapia; e a terceira (30 anos) era formada em turismo e fluente em inglês e italiano. Sem comentários. Também não demorou e os novos proprietários da Varig começaram a deixar milhares de passageiros a ver navios nos aeroportos do país – são mais de 6 milhões devidos a eles, só em milhas.

Oito meses depois de toda essa transação e de gastar cerca de U$ 140 milhões na nova companhia, o fundo Martin Patterson, através de Lap Chan, revendeu a VRG à Gol Linhas Aéreas Inteligentes, por U$ 324 milhões. Na verdade, desde janeiro de 2006, Chan já tinha a missão de encontrar uma empresa que assumisse a Varig. O escalado para negociar o “repasse” da companhia foi o advogado e compadre de Lula, Roberto Teixeira. Mas, a Varig teve de se livrar de Teixeira, em função de uma auditoria interna realizada pela administração da época, segundo a qual ele seria beneficiário de um contrato, a título de serviços de consultoria, que lhe garantiria R$ 450 mil, divididos em três parcelas, e 15% do total dos créditos da empresa (cerca de R$ 105 milhões), caso a manobra desse certo. Mesmo com a suspensão do contrato, Teixeira teria recebido pelo menos R$ 300 mil pelo trabalho que já realizara. (Está lá, na revista Exame, de 23 de março de 2006). Entretanto, na audiência em que foi selado o acordo de compra da Varig, entre Lula e o presidente da Gol, Constantino de Oliveira Júnior, Teixeira estava lá – desta vez, acompanhando Constantino, que, aliás, acentuou, à época, a participação do advogado em declarações à imprensa.

A operação de compra da Varig pela Gol não deve encontrar obstáculos na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e nem no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Porém, o mais novo dono da agora VRG poderá enfrentar problemas. O primeiro deles é com a Comissão de valores Imobiliários (CVM) que divulgou, recentemente, informações de que o vice-presidente financeiro da Gol, Richard Lark, pode ter favorecido investidores pelo fato de ter omitido dados ao mercado. Outro problema é com a aérea Nordeste (que ficou com a antiga Varig). Se ela for à falência, a Gol poderá tornar-se a herdeira dos R$ 7 bilhões de passivos contabilizados.

Ainda há mais outro problema, que é com a sucessão do passivo trabalhista, cuja dívida já está estimada em R$ 1 bilhão, e que ainda está em debate na Justiça. Depois da compra, a Gol já está sendo acionada em pelo menos 17 ações trabalhistas movidas por ex-funcionários da velha Varig. No Rio, existem 98 outras ações trabalhistas abertas contra a VRG ou contra suas ex-controladoras - a VarigLog e a Volo do Brasil. Essas ações podem, agora, incluir a Gol como ré. A empresa julga estar livre de qualquer ação trabalhista por causa do artigo 60 da Lei de Recuperação de Empresas que trata justamente de sucessão de dívidas. Já é consenso, realmente, que essa lei permite interpretações divergentes a respeito dos compromissos com ex-empregados; mas, por outro lado, ainda não existe jurisprudência sobre a questão trabalhista em casos que envolvam companhias em recuperação judicial.

Ao contrário de tudo o que aconteceu no Brasil, governos de todo o mundo têm socorrido suas empresas aéreas, estatais ou não. Aqui, o BNDES, por exemplo, já cansou de socorrer empresas privadas. Recentemente, só para citar um dos milhares de exemplos, socorreu a Volkswagen. Mas, com relação à Varig, parece que tudo o que se tentou nesses últimos anos foi vender a empresa e livrar os possíveis compradores das obrigações trabalhistas, sem que perdessem, é claro, a marca consagrada há 80 anos e as reservas para pousos e decolagens (os slots) nos aeroportos do Brasil e do mundo.

Mas, ninguém dá ponto sem nó. Está lá, no Alerta Total. O governo petista, que criou todas as dificuldades possíveis e imagináveis para salvar a Varig, teria obtido vantagens, no mínimo curiosas, com a compra da Nova Varig pela Gol. Algumas delas seriam, por exemplo, o compromisso de a Gol em não cobrar créditos da União e de não reivindicar as perdas financeiras com o apagão aéreo. O empresário Constantino de Oliveira, fundador da GOL e pai do atual presidente da empresa declarou à imprensa que Lula o havia pedido para “dar um jeito na Varig”. Todas as negociações oficiais entre o governo e a empresa foram conduzidas abertamente por dois homens próximos ao presidente: Roberto Teixeira (já citado) e o ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia. Já as partes ocultas da negociação teriam ficado a cargo do ex-ministro José Dirceu.

Para quem não se lembra, já na CPI do Mensalão, o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) disse, em seu depoimento, que o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza "esteve três ou quatro vezes com o ex-ministro português Antônio Mexia, em nome de José Dirceu, para negociar a Varig", com o objetivo de estabelecer uma parceria com TAP. Não é que a vontade do ex-ministro acabou vindo a prevalecer, pelo menos parcialmente?! TAM e Gol, que sempre priorizaram o mercado paulista, ao contrário da Varig, que fazia vôos reconhecidamente deficitários que integravam cidades de todo o país, foram lucrando e crescendo no espaço deixado pela Vasp e pela Transbrasil. As duas emergentes empresas acabaram, pois, dividindo a VARIG entre si: a Varig e a VarigLog acabaram ficando com a Gol e a VEM (Manutenção e Engenharia) foi adquirida da Varig pela Tap, por U$ 24 milhões.

Cabe lembrar, inclusive, que a posição do governo atual em relação à Varig pode não ter sido por acaso. Primeiro, houve o conflito da empresa com a Consultoria Trevisan, de um dileto amigo de Lula, quando a VARIG foi levada ao pânico ao ser divulgado um plano de parcelamento, em 35 anos, da dívida que a Trevisan tinha com a empresa. Depois, como já foi citado, a Varig teve de se livrar de Roberto Teixeira. Sobre o posicionamento capcioso do governo, o presidente da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e membro do Conselho Nacional de Turismo, Cláudio Magnavita, escreveu um artigo que foi publicado pelo Jornal do Brasil, em 4 de maio de 2005, em que relacionava dados sobre os principais absurdos que vitimaram a Varig, como por exemplo os fatos de a companhia: 1) ter conseguido, em 2004, um lucro operacional de R$ 430 milhões, depois de ter faturado cerca de R$ 8 bilhões (62% da receita de todas as empresas nacionais juntas); 2) estar voando para o exterior com seus aviões lotados; 3) ter ganho no STJ uma ação contra a União de R$ 3 bilhões, sem conseguir receber o pagamento; e 4) não ter tido o apoio do governo federal como moderador nas relações com a Infraero e de este ter atuado na crise como se “uma parte do mesmo estivesse pró-Gol e a outra pró-Tam.
Hoje, os aposentados e pensionistas da Varig estão ao Deus dará. Promessas são a única coisa que conseguem do governo. Muitos já morreram. É um genocídio - porém, dentro da maior legalidade. Uma covardia com pessoas que trabalharam uma vida inteira e que, agora, estão abandonadas pelo Estado. Minha tristeza é que a única coisa que posso fazer é continuar escrevendo, escrevendo e escrevendo.
Christina Fontenelle
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(*) A Fundação Ruben Berta, controladora da companhia, tinha como principal objetivo prover o bem-estar dos funcionários de um conglomerado de empresas criadas a partir de um tronco principal: a VARIG. A criação da holding FRB-Par, destinada a cuidar permanentemente dos investimentos no Grupo, entre outras vantagens, permitiu maior transparência para divulgação de cada empresa; foco em cada atividade de negócios; autonomia de decisões; maximização do retorno aos acionistas e criação de oportunidades de captação de investimentos.

O Grupo FRB-Par controlava, ao todo, 14 empresas: 1) VARIG S/A (Viação Aérea Rio-Grandense) que controla a VARIGLOG, a PLUNA e a VEM; 2) VARIG Participações em Transportes Aéreos S.A. (VPTA) que controla a RIOSUL, e NORDESTE; 3) VARIG Participações em Serviços Complementares S.A. (VPSC) que controlava a SATA, REDE TROPICAL HOTELS E RESORTS BRASIL e AMADEUS BRASIL.

A Fundação Ruben Berta foi uma grande idéia jogada fora pela falta de responsabilidade e de comprometimento de quem a administrou. Foi idealizada em 1945 por Ruben Martin Berta, seu presidente na época, que se inspirou nas leituras do Contrato Social de Rousseau e da Encíclica Rerum Novarum. O capital majoritário foi doado para a constituição da Fundação dos Funcionários Varig, assentando-se como finalidade institucional da Fundação a promoção do bem-estar social dos funcionários da Varig. Com a morte de Ruben Berta, a Fundação recebeu seu nome, mas, aumentou também a disputa pelo poder político-econômico.

Com o tempo, formou-se um verdadeiro império de poder dentro da FRB. A Fundação Ruben Berta chegou a ser detentora de 87% das ações de controle da Varig e de 55% do capital total da empresa. As demais ações eram pulverizadas. O Colégio Deliberante da Fundação, outrora representativo dos funcionários-beneficiários que, depois de alterações em seu Estatuto, tiveram o acesso ao seu quadro restrito, já que passaram a depender do aval da alta direção da FRB para participação no órgão.

(**) O questionamento da decisão de demitir pilotos na Varig e, depois, fazer uma contratação de pilotos na Rio-Sul e Nordeste, no ano de 2002, foi motivo para a demissão de 3 2 pilotos, entre eles toda a diretoria da APVAR (Associação de Pilotos da Varig) e a Comissão de Negociação, em fevereiro daquele ano. Esses pilotos foram demitidos por alegada "justa causa" e tiveram seus retratos colocados nos postos de polícia dos aeroportos brasileiros, numa das maiores afrontas às liberdades democráticas em vigência neste país. Em setembro daquele ano, outros 31 pilotos foram demitidos, em conseqüência do questionamento que se fazia aos números declarados da dívida da empresa para com o Fundo de Pensão Aerus. O total de 6 3 pilotos demitidos demonstra o comportamento da administração da empresa, intencionalmente voltado para esconder a gravidade do quadro econômico-financeiro, ainda que para isso tenham lançado mão de métodos fascistas para "silenciar" a voz dos trabalhadores .

(***) O Aerus foi fundado em 1983, para proporcionar maior segurança e bem-estar aos trabalhadores da aviação, no momento da aposentadoria, por tempo de serviço ou por incapacidade para o trabalho. No caso dos funcionários da Varig, quem aderisse ao Fundo tinha um desconto mensal compulsório no salário e a empresa aérea participava com um percentual. Os trabalhadores que ingressaram na Varig a partir da fundação do Aerus assinavam um termo de adesão compulsória ao Fundo.

A criação do Aerus também foi incentivada pelo governo, através do repasse de 3% do valor das passagens domésticas. Este incentivo foi cancelado no Governo Collor. A partir dos anos 90, a Varig começou a atrasar sua contribuição para o Fundo, mas, os funcionários, contudo, continuaram sendo descontados. A Varig chegou a fazer quatro repactuações da dívida com o Aerus. Em 1º de janeiro de 2003, a Varig extinguiu os Planos de Aposentadoria Aerus, deixando, portanto, de contribuir com o Fundo de Pensão. Hoje, a dívida da Varig para com o Aerus é de R$ 1,5 bilhão. O déficit, em torno de R$ 1 bilhão. Já o patrimônio do Aerus, próximo a R$ 1 bilhão, é constituído, em 50%, de imóveis que não têm liquidez.

No caso dos fundos atuais, tal como aconteceu com o dos aeronautas, eles começaram a mudar de figura a partir da influência dos fundos estrangeiros, ainda no período FHC, mas ganharam corpo quando Luiz Gushiken, amigo de Lula, passou a ditar as regras sob inspiração de Stanley Gacek, o homem da previdência privada sindical dos EUA. A grande mudança impõe a substituição do benefício definido pela contribuição definida. No primeiro caso, o fundo poupava e operava com compromissos claros e o participante sabia que, ao se aposentar, teria a complementação necessária para manter pelo menos 90% de sua renda assalariada. No segundo caso, que está sendo imposto nas repactuações, o empregado sabe quando vai pagar e quanto pagará à patrocinadora. Mas, na hora de receber, vai depender do desempenho do fundo. Isso se ele e a patrocinadora não ficarem insolventes, como aconteceu com os fundos dos aeronautas e ferroviários.

No caso dos trabalhadores em aviação, desde 1991, os fundos vêm sendo minados, a partir do momento em que o governo retirou sua contribuição de 3% - valor que era incluído no valor da passagem. O esvaziamento do Aerus se agravou em 2002, com o estabelecimento da modalidade de contribuição definida, para diminuir os compromissos das patrocinadoras. Nesse ano, a Varig encerrou sua participação contributiva para o Aerus (de forma irregular, posto que a Lei não permite afastamento da patrocinadora sem que antes sejam quitados os débitos existentes). Na verdade, os benefícios do Aerus pagos aos aposentados e pensionistas começaram a sofrer reduções, que chegaram até a 40% do que teriam direito, por causa de cálculos em função de gestões sobre as quais eles não tiveram nenhuma responsabilidade. Em julho de 2005, o governo impôs ao Aerus um Administrador Especial para os Planos Varig, teoricamente, para saneá-los e para resguardar os direitos dos participantes e dos assistidos. Nessa época, os participantes do Aerus (Varig e Transbrasil) foram brindados com a informação de que sofreriam, em fevereiro e março, novos cortes nos seus já minguados benefícios, por causa de uma dívida de R$ 78 milhões do fundo com a Receita Federal – prejuízo esse que deveria ser rateado por todos os aposentados e pensionistas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Familiares dos vôos GOL 1907 e TAM JJ3054 farão protestos no dia 29 de março

As manifestações vão ocorrer em São Paulo, Porto Alegre e ManausOs familiares das vítimas dos dois maiores acidentes aéreos, ocorridos no Brasil em setembro de 2006 e julho de 2007, farão protestos nos aeroportos de Porto Alegre (Salgado Filho), São Paulo (Congonhas) e em Manaus (Eduardo Gomes), no próximo dia 29 de março, às 16h, com apoio da FIVAA – Federação Internacional das Vítimas de Acidentes Aéreos.A ação marca os 18 meses da tragédia do vôo GOL 1907 e será o momento para que os familiares das vítimas relembrem à comunidade o descaso das autoridades para com as famílias e a falta de informações sobre as investigações dos dois acidentes aéreos.

Em cada uma das localidades, familiares da AFAV vôo 1907 (Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do vôo 1907) e da AFAVITAM (Associação de Familiares das Vítimas do vôo TAM JJ3054) farão a leitura de uma carta aberta alertando à comunidade sobre os dois acidentes e os problemas que vêem sendo enfrentados pelas mais de 350 famílias. Outro ponto que será destacado é a falta de punição dos envolvidos nos acidentes e as dificuldades de acesso às investigações oficiais, promovidas pela Aeronáutica.

Representantes das duas associações também estarão à disposição da imprensa nas três localidades. A FIVAA, a federação internacional das vítimas de acidentes aéreos, enviará uma carta de apoio aos atos do Brasil, colocando a posição internacional sobre os acidentes. Também será feita uma ação de protesto, dentro do aeroporto e um minuto de silêncio pelos 18 meses da tragédia do vôo GOL 1907 e em memória das vítimas dos dois acidentes aéreos. A ação também conta com o apoio da ABRAPAVAA - Associação Brasileira de Parentes e Amigos das Vítimas de Acidentes Aéreos.

Protesto dos familiares das vítimas dos vôos GOL 1907 e TAM JJ33054

Dia: 29 de março de 2007

Locais:

São Paulo – Aeroporto de Congonhas

Porto Alegre – Aeroporto Salgado Filho

Manaus – Aeroporto Eduardo Gomes

Horário: 16h

Para entrar em contato com os representantes das famílias em cada uma das cidades, favor entrar em contato pelos telefones:

Lide Multimídia: (41) 3016-8083 ou (41) 8803-8181

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

ESCÂNDALO E JUSTIÇA - AFINAL A ANAC MOSTRA A SERVIÇO DE QUEM TRABALHA.

Por Christina Fontenelle
27 de fevereiro de 2008


O Brasil costumava ser conhecido como o país do “jeitinho” – um bom “plá”, um sorrisozinho, um belo decote, uma “graninha”, um “presentinho” e muita coisa resolvia-se país afora – não se pode deixar de dizer, entretanto, que muitas dessas situações, na verdade, apenas acabavam sendo geradas por causa de regras burras, de leis impraticáveis e, é claro, por falta de “grana”, tanto por parte de quem estava precisando de que se desse o tal “jeitinho” quanto por parte de quem tinha a “autoridade” para dá-lo ou não. De modo que, acabar com o “jeitinho” pondo um fim na maioria de suas causas seria uma vitória para o Brasil.

Não é que o “jeitinho” praticamente acabou sendo, enfim, eliminado do cotidiano da cultura popular? Antes fosse... O que aconteceu é que ele tomou novas formas. Hoje, tudo mudou. O “jeitinho” foi apropriado pelos milionários do país e pela companhia governamental do PT – e de seus aliados e apadrinhados, é claro. Também mudou de nome: virou “jeitaço”, já que o pessoal do aparelhamento não aceita nem presente nem gorjeta que esteja abaixo de, digamos assim, por baixo, 1 mil reais.

Então, temos, na atualidade, o seguinte quadro, por mais incoerente que pareça: 1) nunca houve tantos pobres e gente da chamada classe-média tão endividados, inadimplentes e fora da lei (fazendo gato pra luz, pra internet, vendendo de tudo nas ruas sem pagar imposto – o tal do trabalho informal -, sem pagar condomínio, IPVA, IPTU etc.). Tudo muito mais por força da realidade do que por questão de querer ou mesmo de caráter; e 2) nunca houve “na hissstória dessse paíssss”, tantos ricos (muitos deles incultos e com valores completamente distorcidos novos ricos) explorando e roubando tanto o povo e o dinheiro público – mas tudo dentro da Lei, dentro do “vamos apurar”, do “isso foi um erro, não um crime”, do “suma-se com isso da Imprensa” etc.

É isso: o “jeitinho” fez plástica, foi clonado e virou dois – o “jeitaço” e o “ilegal-pra-sobreviver”. Não vamos falar de bom senso porque ele já faleceu há pelo menos 20 anos por aqui. Se você for pobre ou de classe-média, só lhe restaram duas opções: ou você parte para os escândalos cinematográficos para conseguir que seus direitos sejam respeitados e para que haja um mínimo de bom senso na aplicação de leis, ou parte para a Justiça (enquanto ainda temos o que resta dela). Melhor: faça as duas coisas. Muita gente boa já não tem mais paciência para suportar as imposições legais, institucionais e pseudo-comerciais do noivado entre capitalismo e comunismo (capitalismo de monopólios e de oligopólios transnacionalistas dos amigos do Estado; ou neo-socialismo, como queiram denominar) que se instalou, ao que parece, com pretensões de eternidade, aqui no Brasil.

Temos bons exemplos dessa gente que reage e que, hoje, mata muita gente de vergonha só de pensar em agir de maneira semelhante, mas que no futuro, deverá (ou pelo menos deveria) ser lembrado como tendo sido, com certeza, um dos responsáveis por boa parte da evolução nas conquistas dos direitos do consumidor no Brasil. Se a liberdade vencer, será graças a essa gente. A tal da crise aérea traz boas amostras. E, a partir de agora, passo a relatar um destes casos de reação.

O engenheiro Cezar Marques e sua esposa chegaram, no final do ano passado (2007), de uma viagem ao exterior, pela empresa aérea DELTA, direto no Aeroporto Internacional do Rio Janeiro, de onde deveriam tomar outro avião (por bilhete conjugado) para o Rio Grande do Sul, estado onde vivem. Vindo pela DELTA, e com bilhete internacional conjugado, seria óbvio (e assim o determina a Lei) os dois teriam, cada um, franquia de bagagem de 64 Kg – e não apenas a de 23 kg que é a da franquia nacional. Quando foi fazer o Check-In, entretanto, que no caso era na GOL (posto que, afinal, esta e a TAM são as duas únicas empresas aéreas que restaram para fazer o trajeto RJ-RS, no pleno desenvolvimento capitalista do governo Lula), o engenheiro foi informado de que estava com excesso bagagem, porque, a partir daquele momento já estaria em território brasileiro e que, em assim sendo, deveria submeter-se à franquia nacional. Só no Brasil....

Inconformado – e coberto de razão – Cezar Marques foi procurar, como ele mesmo a mim relatou, o ‘"não sei o que” atual - DAC, ANAC, INFRAERO, ETC’ que existem nos aeroportos brasileiros, quase sempre para dizer o seguinte: “Isto é problema que deve ser resolvido com a Cia. Aérea”. De forma que, segue a sugestão: peçam para sair e pronto!

Continuando. O engenheiro discutiu acaloradamente com um sargento e com um tenente, ambos à paisana. O chefe dos dois, que, segundo Cezar, parecia ser um Ten. Cel., saiu de “finininho”. Sargento e tenente, naturalmente, defendendo o indefensável. Pior: para um governo que lhes “cospe na cara”, mensalmente, cada vez que deposita seus salários e para uma companhia aérea que, no final das contas, também confabulou com o governo para liquidar a maior empresa aérea nacional, mundialmente conhecida por sua eficiência – a VARIG. Chegaram a ameaçar o engenheiro de prisão.

Advertida da confusão, a Cia. Aérea DELTA, pela qual o engenheiro e sua esposa viajavam, fez o que nossos militares, teoricamente, são pagos com o dinheiro do povo para fazer: defendeu o cidadão e comprou a briga de Cezar Marques, entrando em acordo com a GOL para que ele e sua esposa embarcassem sem pagar o excesso - que não era, por lei, afinal, excesso.

Ora, vamos ensinar a missa aos padres e fazer o pedido de que essa gente faça o obséquio de ao menos ler as normas estabelecidas em Lei sobre o setor em que trabalham – se não for pedir muito, é claro:

normas e limitações estabelecidas pela Lei nº. 7.565, de 19.12.86 Código Brasileiro de Aeronáutica e pela Portaria N.º 676/GC-5, de 13 de Novembro de 2000 do Comando da Aeronáutica do Ministério de Defesa publicada no Diário Oficial da União no 219-E, Seção 1, páginas 10, 11 e 12, de 14 de Novembro de 2000, com a vigência a partir de 01 de Janeiro de 2001, retificada pela Portaria N.º 689/GC-5 de 22 de junho de 2005....

... Art. 39. Nas linhas domésticas em conexão com linhas internacionais, quando conjugados os bilhetes de passagem, prevalecerá o sistema e o correspondente limite de franquia de bagagem, estabelecido para as viagens internacionais."

Este ano, entretanto, o engenheiro Cezar Marques e sua esposa resolveram fazer diferente. Decidiram, depois de comprarem seus respectivos bilhetes de viagem internacional, dirigir-se à ANAC de Porto Alegre para conseguir uma espécie de documento que lhes garantisse que a legislação seria cumprida sem que tivessem que passar pelas desagradáveis discussões por causa de “excesso que não é excesso” de bagagem, quando fossem e quando retornassem da futura viagem ao exterior programada para janeiro-fevereiro de 2008. O engenheiro esteve na ANAC, pessoalmente, tratando do caso e encaminhando alguns e-mail. Esperando resposta que não vinha, entrou em contato, via telefone, com o senhor Carvalho Neto, GER 5, chefe da ANAC do Sul, que, segundo César - um currículo invejável no setor aeronáutico, pelo menos segundo os padrões "lulistas", digamos assim, como se pode comprovar clicando no quadro acima.

Não que o engenheiro tenha ficado surpreso, mas ouviu, de cara, algumas das seguintes preciosidades: “Ninguém reclama disso, só o senhor!!!”; “São as Cias. Aéreas que fazem essas normas!!!”; “O correto seria pagar excesso” etc. Pergunto eu: essa gente sabe ler? Se souber, foi obrigada a ler a legislação aeronáutica? Ou todos estes órgãos avulsos já viraram cabide de emprego descarado mesmo? Ora, não é, definitivamente, o que se espera ouvir de um senhor que possui, inclusive, o título de Membro Honorário da Força Aérea Brasileira.

Mas, o engenheiro Cezar Marques, por benevolência talvez, sentiu-se no dever de responder às afirmações absurdas que ia ouvindo:
- “Só eu reclamo porque, mesmo sendo brasileiro, conheço meus direitos e isso não é motivo para que não se tomem providências”.
- “Se são as Cias. Aéreas que fazem as normas, fechem todos os “não sei o que”, pois está provado que não funcionam, até pela quantidade de acidentes - acidentes com mortes -, atrasos, etc. E isso seria uma enorme economia para os cofres públicos”.
- “O turismo no Brasil, que é a maior parte do PIB de vários países na Europa, não cresce porque o turista é tratado como “lixo”, não tem direito a nada, é assaltado, morto, etc.


Engraçado foi que o próprio senhor Carvalho Neto da ANAC mencionou, segundo o engenheiro, que “somos obrigados a seguir as normas dos padrões internacionais” de segurança e de procedimentos. Mas, não parece ser o caso quando se trata das normas de bagagens. Esse desrespeito ao que estabelece o contrato de bilhete conjugado de vigem internacional só acontece aqui no Brasil (talvez China, Rússia, Índia sejam também sejam exceções, não sei). Também não parece ser o caso em relação à proibição de que se viaje portando, na bagagem de mão, canivetes, canetas, etc. que lá pelos Estados Unidos já acabou. Sei que estou sendo repetitiva, mas é que também, em qualquer lugar do mundo (talvez com as mesmas exceções acima citadas) a bagagem de mão padrão pode pesar até 18 Kg. Também nesse caso, portanto, não estamos seguindo as normas dos padrões internacionais. De modo que só nos resta supor que o senhor Carvalho Neto tenha omitido algumas palavrinhas na frase proferida, que deveria ter sido: “somos obrigados a seguir as normas - APENAS AS QUE NOS CONVENHAM - dos padrões internacionais” de segurança e de procedimentos.

Depois de acalorada discussão (na íntegra, em link ao final da matéria) Cezar Marques registrou queixa na ANAC, a pedido dos funcionários, via internet. Ao fazê-lo, encontrou mais alguns absurdos que já se tornaram rotineiros nessa nossa república latino-americana-neo-socialista. A página pedia que se digitasse o CPF do reclamante. CPF é registro importante e que só deveria ser obrigatório em processos judiciais e talvez em contratos de aluguel, de prestação de serviços, etc. No caso do registro de queixa na ANAC, bastaria nome, e-mail e/ou identidade. Gastando milhões em reformas de aeroportos superfaturadas, o setor aéreo não conseguiu implantar um sistema on-line, como o possui a Polícia Militar do Distrito Federal, por exemplo, que não peça ao usuário que desabilite seus programas antivírus e anti Pop-Ups para que possa registrar sua queixa – o que, no caso do formulário online da ANAC, deve ser feito com apenas 1600 caracteres (incluindo os espaços entre as palavras) - espaço que, muitas vezes, pela complexidade das ocorrrências, é insuficiente. Outro problema: não se pode nem copiar e nem colar no tal formulário online, de modo que, se demorar muito a descrever seu problema, o usurário será desconectado e terá que começar a escrever tudo outra vez. A página também pede endereço para correspondência – já não pediram o e-mail?

Enfim, a reclamação foi registrada, no dia 2 de janeiro deste ano, com a observação de que se não fosse respondida em prazo de 3 dias, Cezar marques iria apelar para a Justiça (ou ao que ainda nos resta dela).

No dia seguinte, veio a primeira manifestação do chefe da ANAC de Porto Alegre:



Vocês acham que o cara da ANAC resolveu o problema do senhor Cezar Marques? É claro que não, é obvio. De modo que ele mesmo redigiu um documento que apresentou ao Ministério Público (e que foi por lá adequado aos termos jurídicos, como se pode ver na figura ao lado), onde pôde, pessoalmente, conversar com o Juiz e conseguir a liminar que obrigava a TAM a embarcá-lo, e à sua esposa (veja nas figuras abaixo), nas conexões necessárias para que saíssem de Porto Alegre e para que lá estivessem de volta, nas datas marcadas em seus bilhetes de passagem internacional, mesmo que estas viessem a ser alteradas pelos donos dos bilhetes, se assim o quisessem, sem que ambos tivessem que pagar nenhum centavo que fosse a mais pelos 64 kg que os bilhetes de viagem internacional conjugados lhes davam direito, ao fazerem as conexões internas, em aeronaves de empresas brasileiras, para retorar à sua residência no Rio Grande do Sul . E assim foi...

Agora, vejam os senhores leitores como são as coisas. O caro membro honorário da aeronáutica - o senhor Carvalho Neto - costuma escrever artigos que são publicados pelo Jornal do Comércio, especialmente no caderno (ou na seção) de OPINIÃO. Não é que num destes artigos, sob o título de "Pacto Apático", publicado em 9 de agosto de 2006, ele termina dizendo (PASMEM!) o seguinte: "O que se vê são os Poderes se digladiando em prol da manutenção de seus benefícios, como se o Poder Público existisse para si mesmo e não para uma sociedade que paga pesados impostos e taxas por precários serviços. Enfim o que mais preocupa é a apatia da sociedade frente à completa derrocada dos ideais Farroupilhas e o desrespeito aos nossos antepassados."
Pelo modo como agiu diante da atitude do senhor engenheiro Cezar Marques, que definitivamente saiu do perfil apático da sociedade, como o disse Carvalho Neto em seu artigo, ao que parece, ou o atual chefe da ANAC do SUL mudou radicalmente de opinião, ou é do tipo de pessoa da qual se costuma dizer que "o que ele diz não se escreve". O problema é que Carvalho Neto escreveu, assinou e publicou. Com a faca e o queijo na mão, ele agiu exatamente como agiam aqueles que, nesse caso pode-se dizer, ousou criticar.
Portanto, caros leitores que por acaso tiverem que viajar para o exterior, a partir de cidades que não sejam São Paulo ou Rio de Janeiro, façam seus escândalos - muitos deles e exijam seus direitos. O brasileiro engenheiro Cezar Marques fez a parte dele. O MP do RS também. TEM MAIS, SE TRABALHAR DIREITINHO, DAQUI A ALGUM TEMPO, TODOS OS PASSAGEIROS QUE TIVEREM BILHETES INTERNACIONAIS E TIVEREM QUE PARTIR DO RJ OU DE SP PARA VOLTAR ÀS SUAS RESIDÊNCIAS NOS OUTROS ESTADOS DO PAÍS SERÃO BENEFICIADOS PELO QUE PODERÁ PASSAR A FAZER PARTE DA LEI -como o MP-RS beneficiou o senhor Marques desta vez. Eu, pela parte que cabe ser categorizada como sendo o que se chama atualmente de Imprensa neste país, também estou fazendo aquilo que deve ser feito: jogando no ventilador um exemplo de atitude de busca de seus direitos que deve ser seguido por todos e um fato que deve ser apurado pelos órgãos competentes para que sejam tomadas providências em relação a esta e a outras questões que tratam do setor aéreo brasileiro!


A esta altura, já deve ter aqueles sarcásticos leitores que estão a pensar que isso é problema de rico que pode viajar para o exterior e que, portanto, que se dane o ricaço com seu probleminha. Para esse tipo de gente, seguem alguns esclarecimentos e algumas recomendações:
- ser rico não é problema para a sociedade, é caso de se comemorar menos um para disputar vagas para filhos em escolas públicas, vagas em leitos e ambulatórios públicos, etc.
- ficar rico com trabalho honesto não é motivo para chacota e sim para que se tenha orgulho de se viver onde esse tipo de pessoa ainda possa existir. Sinal de que restariam esperanças ao sarcástico.
- quando um cara que o sarcástico toma como rico passa a ser tratado, por uma companhia que deveria prestar serviços de alto nível, desta maneira desrespeitosa, é sinal de que você – o sarcástico que se qualifica de pobre – está mais pra lá do que “ferrado”. E que se gente como esse cara que ele chama de rico não começar a reagir e a conseguir que seus direitos sejam respeitados, o sarcástico pode começar a aprender a nadar longas distâncias e em águas turbulentas, porque, para poder levar uma vida digna, terá que atravessar o Atlântico a nado – de preferência para os EUA, fazendo um pit-stop, quem sabe, em Porto Rico (que é uma miniatura dos EUA – piorada, é verdade).
AGORA, PARA TERMINAR, OUÇAM, NOS VIDEOS ABAIXO, A DISCUSSÃO QUE O ENGENHEIRO CEZAR MARQUES E O SENHOR CARAVALHO NETTO, DA ANAC, TIVERAM, POR TELEFONE. CLIQUE NOS FILMES, UM DE CADA VEZ E OUVIRÁ TUDINHO. AS IMAGENS DOS FILMES SÃO APENAS ILUSTRAÇÕES DA CRISE AÉREA, COLOCADAS COMO PANO DE FUNDO, PARA LEMBRAR O QUE ESTÁ POR TRÁS DESTA E DE OUTRAS DISCUSSÕES.
NUM DESSES QUATRO "VIDEOS" APARECE O SENHOR CARVALHO NETO DIZENDO QUE BRASILEIRO QUE DESEMBARCA NA TERRA DOS "HERMANOS" ARGENTINOS TEM A SI PRÓPRIO E À SUA BAGAGEM DESINFETADA - É ISSO MESMO: SOMOS DESINFETADOS!!!!

Christina FontenelleE-mail: chrisfontell@gmail.com
MEMÓRIA INFOMIX: http://acidentetam2007.blogspot.com/ (Deixe seu recado)

MATE AS SAUDADES DA VARIG

MATE AS SAUDADES DE COMO ERA BOM E MAIS SEGURO VOAR PELO BRASIL E DAQUI PARA O MUNDO!!!!
VARIG
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VASP

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TRANSBRASIL

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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O CAOS AÉREO NÃO ACABOU E OS CÉUS DO BRASIL FORAM TOMADOS POR UM CARTEL DE EXPLORAÇÃO E DE INCOMPETÊNCIA

8/02/2008
Christina Fontenelle

O Ministro da Defesa Nelson Jobim, “O
 Idiota”, como é chamado unanimemente pelos freqüentadores dos aeroportos brasileiros, sejam eles passageiros, tripulantes ou funcionários - quem freqüenta aeroportos certamente jsabe disso), vem declarando publicamente, já há algum tempo, com aquele tom de voz e com aquela postura imponentes de sempre, que não há mais caos aéreo no Brasil. Entenda-se: para o ministro, falar grosso e ser fisicamente agigantado são requisitos suficientes para resolver todos os problemas que apareçam pela frente e que estejam sob a responsabilidade do MD, inclusive, tirar e colocar de cargos de importância estratégica para o país quem quer que seja, sem que logo surjam os conseqüentes prejuízos dessas ações para todos os brasileiros.

Vou relatar apenas um dos mais diversos tipos de aflição que têm acometido milhares de passageiros, país a fora, diariamente, só para vocês saberem o que é que o nosso (nosso não, deles) ministro da defesa classifica de fim do caos aéreo.

RIO DE JANEIRO

No dia 25 de janeiro deste ano que se inicia, meus três filhos – uma menina de 15, um menino de 14 e outro de 10 anos – acordavam, na casa dos avós, no Rio de Janeiro, por volta das 7h, para, logo depois do desjejum, seguirem de carro, com os avós, para o Aeroporto Internacional Tom Jobim (aquele que todo mundo continua chamando, inclusive por escrito, de Galeão). Eles deveriam se apresentar para fazer o Check-In por volta das 10h e embarcar no vôo 1900 da GOL, com destino à Brasília (DF) - a decolagem estava marcada para as 11h.

Feito o Check-In e despachadas as bagagens, os três menores foram entregues, pelos avós, no portão que vai para a área de espera para embarque – e pelo qual nem mesmo o Papa pode passar se não for embarcar em um vôo qualquer -, a uma funcionária da GOL que, especialmente no caso de crianças com menos de 12 anos que viajam desacompanhadas, deve ficar permanentemente responsável por elas até que sejam devidamente entregues à responsabilidade da tripulação da aeronave em que viajarão. Maiores de 12 anos não precisam de um funcionário-acompanhante permanente a seu lado, embora, naturalmente, devam ser bem orientados e, assim como idosos e como deficientes, devem ter prioridade para embarcar.

Por volta das 12h:45m, todos os passageiros do vôo 1900 deixaram a sala de embarque e foram conduzidos ao ônibus que os levaria até à aeronave. Chegando lá, o veículo ficou um bom tempo parado, em frente ao avião – sob aquela “agradável” temperatura do verão carioca – e, sem maiores satisfações por parte dos funcionários da companhia aérea, retornou com os passageiros para a área de embarque, na qual os menores foram “acomodados” e devidamente “abandonados” numa pequena sala, sem ar condicionado, com apenas 9 assentos disponíveis, sem banheiro e da qual não poderiam sair, segundo a funcionária da GOL, “sob hipótese nenhuma”.

Água? Café? Lanche para os idosos e para as crianças? É claro que NÃO! Onde é que essa gente-carga-pagante (que é como a GOL trata seus passageiros) pensa que está? Na Disneylândia?

Depois de desfrutarem do “conforto” das acomodações da saleta acima descrita, por cerca de uma hora, os menores, bem como o restante dos passageiros, foram novamente colocados na condução e, desta vez, chegaram a embarcar na aeronave. Todos acomodados. O avião levantou vôo? Não. Os passageiros foram informados de que deveriam deixar o avião e retornar à sala de espera de embarque, pela segunda vez, “por causa de problemas com o ar condicionado”. Tumulto, gritaria, xingamentos (Jobim não foi esquecido) e rebelião dos passageiros para não ter que sair da aeronave. Mas, não houve jeito – todo mundo teve mesmo que voltar para a sala de embarque – e os menores para a “confortável” saleta “prisão”.

BRASÍLIA

Até então, quem estava, em Brasília, à espera da chegada do vôo 1900 vindo do Rio de Janeiro, tanto para reencontrar seus parentes e amigos como para pegar o mesmo vôo (que passa a se chamar vôo 1901, quando chega e sai de Brasília) com destino à outra cidade, só sabia que o vôo estava atrasado “por motivo de excesso de trânsito de aeronaves para decolar lá do Galeão.


RIO DE JANEIRO

Quando voltaram à sala de espera de embarque, vários passageiros que tinham problemas de horário para chegar ao aeroporto de Brasília, por causa das conexões que deveriam fazer e que haviam sido programadas, na hora da venda de passagens, justamente pela própria GOL, foram separados dos outros passageiros do vôo 1900 e conduzidos para embarque em outra aeronave.

Foi exatamente nesta hora - em que todo mundo teve que deixar a aeronave e quando alguns passageiros foram separados - que minha filha me ligou, lá do Galeão – já aos prantos – dizendo que ela, os irmãos e todos os outros menores haviam sido literalmente abandonados pela acompanhante de menores (que havia ido conduzir os passageiros que fariam conexões em Brasília, como já descrevi acima). Minha filha dizia que a acompanhante da GOL sumira e que ninguém da companhia os acompanhava ou os informava de absolutamente nada. Disse também que todos estavam exaustos, com muito calor e sem se alimentar - àquela hora, havia mais de 4 horas, já que passava (e muito) das 14h. Preocupação da GOL com os passageiros e especialmente com os idosos e com os menores? Nenhuma!

BRASÍLIA

Por aqui, imediatamente após ter recebido o telefonema de minha filha, dirigi-me ao aeroporto JK (*) e, lá chegando, fui direto para a sala da ANAC, onde já encontrei algumas pessoas pedindo informações sobre o tal do vôo 1900 e fazendo reclamações contra a GOL. Identifiquei-me como jornalista e que ali estava para saber exatamente onde estavam meus filhos, em que vôo e em que hora eles finalmente seriam embarcados e, principalmente, o porquê de eles terem sido completamente abandonados pela acompanhante de menores da GOL no aeroporto do Rio de Janeiro.

Silêncio total na sala... Todo mundo com cara de quem “não acredito!”. O senhor Luiz Gustavo, funcionário de carreira da ANAC – há 20 anos na agência -, muito educado e tentando defender os passageiros, não cansava de repetir que aqueles problemas específicos deveriam ser resolvidos entre estes e a companhia aérea, mais precisamente no Juizado Especial – ali mesmo no aeroporto. Mesmo assim, ele já havia requisitado a presença de responsáveis da GOL na sala da ANAC, mais de uma vez, e não havia obtido sucesso. Entretanto, depois da descrição do meu problema, ele deixou a sala – porém, sem dizer o motivo a ninguém.

Eu, então, achando que ali na ANAC não conseguiria resolver e nem saber de nada, parti para o Juizado. Lá chegando, uma funcionária veio logo saber qual era o meu problema e, muito preocupada com o meu já adiantado estado de nervosismo, me ofereceu assento e um copo de água. Descrito o meu caso, a funcionária disse que naquele juizado não se resolvia problemas que envolvessem menores. Além disso, como por lá também já havia outras pessoas tentando resolver outros problemas em relação ao vôo 1900, a funcionária disse que os responsáveis pela GOL já haviam sido requisitados por duas vezes a comparecer ao Juizado, mas que se recusavam a descer do escritório da empresa – que fica atrás dos balcões de Check-In da companhia, no segundo andar do aeroporto de Brasília.

Bem, no meu estado já descontrolado, se Maomé não iria à montanha, definitivamente, e em tempo recorde, a montanha estaria bem diante dele. Saí do Juizado, subi e parei diante dos balcões de Check-In da GOL, onde solicitei a um funcionário que chamasse quem quer que estivesse respondendo pela companhia naquele momento. Expliquei rapidamente o meu problema e ele foi lá dentro, presumia eu, chamar algum responsável. Pois, alguns minutos depois, voltava o funcionariozinho, com a cara mais tranqüila do mundo, dizendo que o vôo estava “apenas” atrasado, mas que certamente chegaria à Brasília – a hora da chegada é que estava difícil de prever.

Você não entendeu a língua em que eu lhe pedi para trazer o responsável pela GOL ou está com problema de audição?”, perguntei eu. “Vou repetir: Eu quero falar com o responsável pela GOL, agora!” Disse isso, aos berros, e fui atravessando o galpão, as esteiras que rolam as malas, até começar a abrir as portas que levam aos escritórios das companhias aéreas. Um funcionário tentava me segurar, mas, eu continuava aos berros dizendo que queria saber dos meus filhos e do por quê de eles terem sido abandonados pelos responsáveis da GOL no aeroporto do Rio de Janeiro, além de terem sido obrigados a embarcar numa aeronave que já havia deixado de levantar vôo duas vezes por causa de problemas técnicos – “Por que não trocaram as pessoas de avião? Que problema era aquele?” – Isso tudo, aos berros, para que todos pudessem saber o que a GOL estava fazendo comigo e com meus filhos.

O aeroporto inteiro de Brasília ouvia meus gritos e via meu desespero. Desta forma, acharam mais conveniente conduzir-me para dentro das salas onde ficam os escritórios das companhias. Detalhe: quem me atendeu e me levou para encontrar com uma, suponho eu, supervisora da GOL, foi um funcionário da Ocean Air, cuja porta de acesso ao escritório fica ao lado da porta da GOL. A esta altura, até o funcionário da ANAC que havia deixado a sala da agência sem dar satisfações, já estava lá atrás também, indo ao meu encontro, com uma lista dos menores que iriam embarcar no vôo 1900 (fora para isso que ele havia deixado sua sala, agora ficava eu sabendo).

Bem, “apareceu a margarida” – pelo menos, “uma margarida”: a funcionária da GOL de nome Paula Cunha. Muito calma e educadamente, ela esclareceu que o “probleminha” que havia ocorrido na aeronave do vôo 1900 era apenas numa das turbinas (por duas vezes, como já disse, o piloto já havia deixado de decolar pelo mesmo motivo). Ora, então, naturalmente para a dona Paula, havia motivo suficiente para que eu ficasse mais “tranqüila” ainda, pois, o problema, como haviam dito aos passageiros lá no Rio de Janeiro, não era no sistema de ar condicionado, mas APENAS na turbina – E HAVIA OCORRIDO POR DUAS VEZES!!!

A senhora Paula tentava dar-me umas aulinhas de aviação sobre problemas com turbinas, mas eu não pude continuar ouvindo coisas que, afinal, para quem já tem investigado os dois últimos maiores acidentes aéreos ocorridos no Brasil, o discurso da moça era patético. Eu, pela enésima vez, esclareci que queria saber onde estavam meus filhos, com quem eles estavam e porque todos os passageiros não haviam sido remanejados para outra aeronave, presumivelmente, sem defeito. Queria um documento, uma declaração por escrito da GOL. Porém, vendo que dali não sairia nada, desci outra vez para a sala da ANAC, onde registrei a ocorrência.

RIO DE JANEIRO

Novamente na sala de espera, colocaram menores e idosos já do outro lado do vidro que divide estas salas do corredor de embarque, separando-os do resto dos outros passageiros. Meus três filhos ficaram esquecidos junto com estes outros passageiros e tiveram que berrar e espancar a porta de vidro até que algum funcionário da GOL viesse abrir a porta para colocá-los junto com os outros menores, do outro lado do vidro. A esta altura, estavam havia cerca de 5 horas sem comer absolutamente nada - pelo menos que lhes tivesse sido providenciado pela GOL. Algum tempo depois deles já terem conseguido passar para o lado do vidro onde estavam os outros menores, apareceu uma funcionária da GOL – até então desconhecida - que, surpresa ao saber que os menores estavam desacompanhados e desorientados, resolveu ficar ali até que os mesmos fossem embarcados no ônibus.

Junto com os menores havia uma senhora que deveria ter uns noventa e poucos anos, bem franzina, e que já não agüentava mais ficar de pé e nem andar. Os menores e a senhora cansaram de pedir uma cadeira de rodas, mas, os funcionários da GOL diziam que não havia nenhuma disponível. Quem conduzia e auxiliava a senhora nas idas e vindas? Algum funcionário da GOL? Não. Quem fez isso foi um menor de 15 anos com físico mais avantajado. Um absurdo? Absurdo maior foi constatar, ao descerem para embarcar no ônibus que levaria os passageiros para aeronave, já pela terceira vez (e desta vez a última), que havia uma linda, perfeita, isolada e desocupada cadeira de rodas no andar de baixo. Porém, que já de nada adiantaria ser pega, pois não seria usada no ônibus e nem no avião.

Finalmente dentro da aeronave, todos acomodados, esta levantou vôo, por volta das 15h:30m - quatro horas e 30 minutos após a hora marcada para a decolagem, que deveria ter ocorrido às 11h. Atraso de mais de 4 horas não pune a companhia com multa e não dá direito aos passageiros de receber o dinheiro da passagem de volta? Vou consultar o código, mas tenho a impressão de que sim.



BRASÍLIA

Por volta das 16h:20m, os passageiros que haviam embarcado em outra aeronave para não perderem suas conexões em Brasília, finalmente pousaram na Capital. De repente, nova invasão na ANAC. Por quê? Simplesmente porque a GOL havia dado ordens expressas para que os aviões nos quais os ex-passageiros do vôo 1900 fariam suas conexões levantassem vôo sem esperar que os mesmos chagassem à Brasília. Houve casos em que a diferença entre a chegada dos passageiros e a partida do avião em que fariam conexão foi de apenas 10 minutos. Todos revoltados - e com razão. Foram tratados como lixo!

Uma destas passageiras viajava para ver o pai que estava em estado grave numa UTI, em Corumbá (Mato Grosso). Indignada, ela teria que ficar por pelo menos mais 7 horas no aeroporto de Brasília para que conseguisse, finalmente, pegar outro vôo para aquela cidade – tudo por conta “do bolso” dela, é claro, e inclusive sem que lhe fosse dada a menor atenção psicológica diante de sua angústia e de seu sofrimento. Foi por esta mulher que, dando a descrição de meus filhos, fiquei sabendo que haviam realmente embarcado no vôo 1900 e que, no painel da área de desembarque doméstico, o horário previsto para a chegada do vôo mostrava 16h:50m.

Revoltada, porém mais tranqüila em relação ao meu problema, enfim, dirigi-me para o portão de desembarque doméstico e, freqüentemente, olhava o relógio e a situação do vôo (realmente estava confirmado para chegar às 16h:50min). Para ver se o tempo "passava mais rápido", fui tomar um café e, quando voltei ao portão, adivinhem o que estava escrito ao lado do vôo 1900? “Procurar a Companhia Aérea”. Isso mesmo: aquela mensagem que apareceu no painel de desembarque dos aeroportos onde eram esperados os vôo da GOL e da TAM que se acidentaram em 2006 e em 2007, respectivamente, dos quais, infelizmente, jamais desembarcou nenhuma das pessoas que dentro daquelas aeronaves estavam.

Eu e mais algumas pessoas, em estado quase que de surto emocional, partimos para o balcão da GOL para saber notícias. Diante daquelas pessoas – todas verdes, azuis, brancas e completamente desesperadas, um funcionário da GOL foi imediatamente buscar esclarecimentos. Voltou rapidamente (embora para nós, que esperávamos notícias, parecesse ter passado horas) e disse que o avião já estava no solo do aeroporto de Brasília e que a demora para o desembarque se devia a problemas de taxiamento (eram 17h:10m quando o 1900 pousara em Brasília). Foi um alívio indescritível. Mas, sossego mesmo, só tive quando vi as carinhas dos meus três amores saindo do portão de desembarque com suas bagagens e seus sorrisos – era cerca de 17h:25m. Portanto, foram as 5 horas mais longas e angustiantes de espera da minha vida. Deixei pelo menos uns cinco anos de vida naquele aeroporto - um para cada hora -, em saúde e em aparência.

Não sei se por causa de meus escândalos ou não, ao desembarcarem no aeroporto de Brasília, a senhora dos seus 90 anos veio numa cadeira de rodas, empurrada por um funcionário da GOL e o meu filho de 10 anos saiu acompanhado de uma sorridente funcionária que o entregou em minhas mãos, pessoalmente, pedindo minha identidade e fazendo com que eu assinasse um papel no qual eu supus estar escrito uma espécie de confirmação de que eu - a responsável - tinha recebido meu filho "inteiro" e "em pessoa" - já que as letras do "documento" eram muito pequenas e a situação era de muita emoção para mim.

FIM DA ESTÓRIA

A Gol Linhas Aéreas, que complementa seu nome se autoproclamando “Inteligentes”, deveria ser judicialmente obrigada a trocar este complemento pela palavra que mais se adequa ao perfil e ao “modus operandi” da companhia, passando a ser nomeada de GOL Linhas Aéreas Espertas. Sim, porque tratar passageiros como carga-animada (desprovida de fome, de sede, de necessidade de conforto e de respeito), que, bem ao contrário do que a companhia anuncia como sendo seu carro-chefe de concepção de administração, cobra passagens absurdamente caras pelos péssimos serviços que presta. Não se trata de inteligência, num país como o nosso, onde não existem empresas aéreas concorrentes que ofereçam outros tipos de serviço, ainda que mais caros fossem, administrar uma companhia aérea de baixo-custo como o faz a GOL, e sim de esperteza.

No Brasil, o tipo de negócio praticamente bi-monopolizado e “companheiramente” cartelizado que fazem a GOL e a TAM é o da esperteza, do tipo daquele que faz quem quer levar vantagem em tudo e do tipo daqueles que fazem o que querem com o consumidor, por saber de sua impotência diante de um Estado Neo-Comunista que finge funcionar numa democracia e num capitalismo de mercado livre.

Conduzem passageiros em aeronaves extremamente desconfortáveis, classificando amendoim e refrigerante como serviço de bordo; excedem o mínimo nível de tolerância que se poderia esperar de uma companhia aérea quanto ao extravio de bagagens; carregam cargas desacompanhadas em aviões que deveriam transportar exclusivamente passageiros e seus pertences, e finalmente preferem ser processadas por erros e abusos do que melhorar seus serviços – porque assim fica mais barato. Pelo que são submetidos os passageiros que viajam por estas companhias, “cenzinho” (R$ 100,00), ida e volta, para e de qualquer lugar, ainda estaria meio caro.

Mas, enfim, estamos em boas mãos. O senhor “entendo de tudo e calem a boca” (o próprio: Nelson Jobim), depois de arbitrar, por exemplo, algum tempo depois do último acidente aéreo grave com um avião da TAM em Congonhas, no qual morreram 187 pessoas, que naquele aeroporto não haveria mais pousos e decolagens de aeronaves de médio e de grande porte com conexões e com escalas, agora, no último dia 28 – apenas seis meses depois – anunciou a ressurreição do pesadelo. "Mas a segurança do aeroporto continua intocável", disse o ministro, apesar de toda a nação saber que a pista de escape elaborada com concreto poroso – recomendação tácita, tanto antes como depois do acidente – jamais tenha começado a ser construída em Congonhas. Porém, Jobim já discursou sobre todas as resoluções. Para ele, isso já foi mais do que suficiente para por um fim na crise aérea – que, para ele, não existe mais.
(*) Eu moro a menos de 10 minutos do Aeroporto. Por isso, costumamos controlar o horário de ir buscar quem chega de viagem pelo horário em que a pessoa confirma que vai levantar vôo e o tempo regular que se costuma levar para cumprir o trajeto.
8/02/2008